obra:
"A Ópera dos Três Vinténs"
tipo:
Cenografia e Direção de Arte
ano:
2024
cliente:
fictício (prof. Dr. Emerson Brito)
Este projeto foi desenvolvido como trabalho de conclusão para a disciplina de Direção de Arte em Eventos e Espetáculos (curso de pós-graduação em Direção de Arte da Belas Artes). O desafio proposto consistiu em conceber a identidade visual, o figurino e a cenografia para a cena inicial da clássica peça "A Ópera dos Três Vinténs", de Bertolt Brecht. O resultado é uma adaptação provocativa e imersiva que transporta a crítica social da obra original para o contexto midiático do Brasil atual.
Para a concepção do projeto cenográfico, o recorte escolhido foi a "Rouparia para mendigos de Peachum", a primeira cena do primeiro ato. Engrenagem central da sátira anticapitalista de Brecht, a Rouparia é um estabelecimento tocado pelo personagem Jonathan Peachum, que comercializa a miséria através de disfarces ou "figurinos da mendicância" - arquétipos psicológicos desenhados para extrair dinheiro via culpa e piedade. Nossa proposta adapta essa premissa para o contexto atual, transformando a rouparia em uma agência que fabrica e vende arquétipos mais atuais para manipulação das massas: o Político, a Influencer, o Pastor Religioso e o Coach.



Obra fundamental do Teatro Épico brechtiano, "A Ópera dos Três Vinténs" (1928) objetivava romper a ilusão realista do espaço cênico para provocar o "efeito de estranhamento" e a reflexão crítica do público - e é nisso que nosso conceito criativo fundamentalmente se ancora. Assim como Brecht, buscamos inspiração no Construtivismo Russo para desenhar uma cenografia funcionalista a partir de formas geométricas/abstratas que busca se afastar da ilusão teatral e causar desconforto, estranhamento e, idealmente, despertar a conscientização política e reflexão crítica do público. Como no teatro de vanguarda soviético, o cenário expõe sua engenharia e se apresentando como uma máquina cênica utilitária onde a estrutura física tem função narrativa direta, evidenciando as engrenagens de controle e manipulação que atuam na sociedade ali representada.
O projeto cenográfico é elaborado a partir da abstração imagética do poder e dinheiro acumulados: patamares circulares (moedas empilhadas) ascendem do piso e são entrecortados por planos retangulares de tecido branco (cédulas de papel), conformando púlpitos e vitrines para exibição de "personas manipuladoras" sob uma aura asséptica e sagrada.
Os elementos translúcidos e reflexivos do espaço cênico funcionam como metáfora visual para a distorção da realidade e a falência ética do sistema. Dentro da "lógica da vitrine", a cenografia busca fundir reflexo, desejo e ilusão em um processo no qual o espelhamento literal captura a plateia, forçando o observador a se reconhecer como alvo e parte integrante daquela máquina de manipulação. Ao fundo, os planos telados recebem projeções enquanto expõem os bastidores (coxias), destruindo a magia e derrubando a quarta parede.



Para abrigar essa estrutura, a escolha do Teatro do SESC Pompeia, de Lina Bo Bardi, atua como um elemento conceitual complementar e indissociável da proposta. A própria configuração espacial do teatro favorece o distanciamento brechtiano: a disposição de duas arquibancadas frente a frente obriga o público a enxergar a si mesmo (um público olhando para o público do lado oposto), intensificando a vigilância mútua e a quebra da imersão. Somado a isso, o uso das icônicas cadeiras de madeira do local, desenhadas por Lina para serem intencionalmente "desconfortáveis" e provocativas, converte a arquitetura em um dispositivo físico ativo que elimina a passividade contemplativa e confortável do espectador.




ficha técnica.
nome do projeto: Cenografia para "A Ópera dos Três Vinténs"
tipo: Cenografia e Direção de Arte
ano: 2024
cliente: fictício (prof. Dr. Emerson Brito)
local: SESC Pompéia - São Paulo
papel no projeto: desenvolvimento criativo e conceitual completo, liderança de equipe, maquete eletrônica, criação e edição de imagens, coordenação e apresentação de projeto
autoria: Guilherme Cuoghi, Angelo Sangiuliano, Carolina Hasbani, Julia Porphirio, Karina Carvalho e Virgínia Amaral


